A evolução das condições favoráveis ao retorno do El Niño, que provoca chuvas excessivas na Região Sul do país, aumenta as preocupações na agropecuária gaúcha. Apesar da incerteza quanto à intensidade que o fenômeno poderá atingir, os modelos climáticos indicam a ocorrência de um evento forte, com potencial para causar problemas na etapa final da safra de inverno e atraso na semeadura das culturas de verão, segundo o meteorologista Flavio Varone, coordenador do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro), da Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi).
No último dia 14, a Administração Nacional para Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) emitiu um documento indicando que já existe um “alerta de El Niño”. Segundo a agência, probabilidade de que o fenômeno ocorra entre maio e julho deste ano é de 82%, e a de que ele continue até o inverno no Hemisfério Norte (entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027), de 96%. ”A primavera no Rio Grande do Sul já é bastante chuvosa sem influência de grandes fenômenos climáticos. Com o El Niño forte, provavelmente vamos ter a intensificação daquelas tempestades de primavera. Poderemos ter eventos severos, chuvas muito intensas em curto espaço de tempo”, diz Varone.
O meteorologista pondera que ainda é cedo, porém, para determinar a possibilidade de repetição de um cenário dramático como o de 2024, quando o El Niño impulsionou a ocorrência das enchentes no Estado. “Nem todo El Niño é igual. Mesmo que o contexto seja de El Niño muito forte, não quer dizer que nós tenhamos problemas similares, ele não provoca um evento daquela magnitude. As condições predominantes na atmosfera no momento serão determinantes para se fazer uma previsão”, explica Varone.
Segundo o meteorologista, a Seapi está atenta ao monitoramento dessas condições e melhorando a rede de coleta de dados. Das 102 estações meteorológicas próprias instaladas no Estado, cerca de 20% estão com problemas. “Pretendemos ter até a primavera todas as nossas estações funcionando, para que se tenha uma resposta rápida em relação a qualquer evento que ocorra. O Estado está muito mais preparado nesse sentido”, afirma Varone.
O El Niño se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. A expectativa de seu retorno desestimula a semeadura do trigo, que começa na próxima semana no Estado. A Emater/RS-Ascar ainda estima o tamanho da área a ser cultivada com o cereal na safra 2026, mas já é esperado o recuo das lavouras, segundo o engenheiro agrônomo da empresa Célio Alberto Colle. De acordo com o levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o plantio no Rio Grande do Sul deve ficar em 925 mil hectares, ante 1,156 milhão no ano passado.
Colle explica que o excesso de umidade facilita a ocorrência de doenças nas etapas de desenvolvimento das plantas e, caso confirmada a previsão de volumes de chuva acima do patamar normal em setembro, deve dificultar a colheita do cereal no prazo adequado. Isso pode comprometer a qualidade do produto e dificultar a comercialização posterior. “O trigo é muito suscetível. Tu acabas tendo de fazer um número muito grande de tratamentos e acaba elevando o custo (da lavoura)”, destaca o agrônomo. Para minimizar os prejuízos no campo, ele recomenda que, na semeadura, os produtores optem por variedades mais resistentes a doenças e invistam fortemente nos tratamentos fitossanitários preventivos.
O agrônomo lembra que o fenômeno climático se soma a um conjunto de fatores já desfavorável aos triticultores: a queda da demanda, o descompasso entre os preços do trigo e os custos de produção, a menor oferta de crédito e as limitações do Proagro. Na safra passada, segundo Colle, a proporção de lavouras implantadas por meio de financiamento caiu de 60% para 43% da área total de trigo em relação ao ciclo anterior. “Também houve uma redução da área com amparada com Proagro, por exemplo. (O El Niño) acaba aumentando o risco e, consequentemente, (estima-se) uma menor área de plantio”, avalia Colle, observando que as regras atuais do programa de seguro rural federal excluem os produtores que comunicaram perdas em três ou mais dos últimos cinco anos.
Matéria replicada do site: Correio do Povo