* Élcio Bento – Especialista em Inteligência de Mercado – Complexo Trigo
A rápida expansão da indústria brasileira de etanol de milho vem transformando não apenas o setor de biocombustíveis, mas também a dinâmica dos mercados de alimentação animal. Como consequência direta desse avanço, a oferta de DDGS (Distillers Dried Grains with Solubles) — coproduto resultante da produção de etanol — cresce em ritmo acelerado, despertando atenção e preocupação entre agentes da cadeia tritícola. A questão central é compreender até que ponto esse novo volume de DDGS poderá afetar a demanda e a competitividade do farelo de trigo no Brasil.
Para analisar esse cenário, a experiência dos Estados Unidos oferece uma referência valiosa. A partir dos anos 2000, e especialmente após o ciclo de valorização das commodities agrícolas que culminou na chamada “bolha das commodities” de 2008, a indústria norte-americana de etanol de milho passou por uma expansão sem precedentes. Como resultado, a produção de DDGS cresceu exponencialmente e o produto consolidou-se como um dos principais ingredientes utilizados na alimentação de bovinos, suínos e aves. Entretanto, a experiência americana mostra que o crescimento do DDGS não provocou o desaparecimento dos coprodutos da moagem de trigo, conhecidos naquele mercado como wheat middlings. O que ocorreu foi a ampliação do conjunto de alternativas disponíveis aos nutricionistas, aumentando a flexibilidade das formulações e a concorrência entre ingredientes com características nutricionais semelhantes.
Esse aspecto é particularmente relevante para o caso brasileiro. O farelo de trigo não é valorizado prioritariamente por seu teor proteico, mas por sua combinação de energia, fibra digestível e custo competitivo. Sob essa perspectiva, seus concorrentes mais diretos não são os farelos proteicos, como o farelo de soja, mas sim ingredientes que desempenham funções semelhantes nas dietas animais. Entre eles destacam-se o milho, a casquinha de soja, o farelo de arroz, o sorgo, o farelo de algodão e, cada vez mais, o DDGS. Na prática, o farelo de trigo já opera há décadas em um ambiente altamente competitivo. O mercado brasileiro de alimentação animal é caracterizado pela presença de diversos coprodutos agrícolas e agroindustriais que disputam espaço nas formulações de acordo com sua disponibilidade regional, valor nutricional e relação custo-benefício. Sob esse prisma, o DDGS não inaugura uma nova realidade concorrencial; ele passa a integrar um sistema que já convive com múltiplas alternativas de substituição.
O diferencial do DDGS reside menos em sua composição nutricional e mais na velocidade de crescimento de sua oferta. Em pouco mais de uma década, a produção brasileira desse coproduto saltou de volumes praticamente residuais para patamares superiores a 9 milhões de toneladas anuais, superando com folga a disponibilidade nacional de farelo de trigo. Trata-se de uma expansão impulsionada não pela demanda da indústria de rações, mas pelo avanço da produção de etanol de milho, da mesma forma que a oferta de farelo de trigo depende da moagem, a de farelo de arroz do beneficiamento do arroz e a de casquinha de soja do esmagamento da oleaginosa.

Os impactos dessa nova dinâmica, contudo, tendem a ser bastante heterogêneos entre as regiões brasileiras. No Sul, principal polo de moagem de trigo do país, a proximidade entre moinhos e consumidores continua representando uma vantagem competitiva importante, reduzindo custos logísticos e favorecendo relações comerciais já consolidadas. No Sudeste, a concorrência deverá aumentar gradualmente, acompanhando a maior disponibilidade de ingredientes alternativos. Já no Centro-Oeste, onde se concentram as usinas de etanol de milho e o crescimento da pecuária intensiva, o DDGS reúne condições para ampliar sua participação de forma mais significativa, beneficiado pela oferta local e por uma estrutura logística mais favorável.
À luz da experiência americana, parece pouco provável que o DDGS provoque uma ruptura estrutural no mercado brasileiro de farelo de trigo. O cenário mais plausível é o de uma intensificação gradual da concorrência entre ingredientes ricos em energia e fibra, ampliando as possibilidades de substituição dentro das formulações e tornando as decisões de compra cada vez mais sensíveis às relações de preço.
Nesse contexto, o principal desafio para a indústria moageira não parece ser uma perda abrupta de demanda, mas sim a necessidade de competir em um ambiente progressivamente mais diversificado. O DDGS não representa uma ameaça existencial ao farelo de trigo, mas tende a consolidar-se como mais uma importante referência competitiva dentro do mercado de alimentação animal. Assim como ocorreu nos Estados Unidos, o impacto mais provável não será a substituição direta do farelo de trigo, mas o aumento da sensibilidade do mercado às relações econômicas entre ingredientes concorrentes, reforçando a importância da eficiência logística, da proximidade com os consumidores e da competitividade relativa de preços.
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*Élcio Bento – Especialista em trigo por Safras & Mercado, é economista, graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos. Realiza palestras, seminários e consultorias por todo o país, além de ser o responsável pela elaboração dos relatórios diários e semanais do segmento de trigo.