* Élcio Bento – Especialista em Inteligência de Mercado – Complexo Trigo

O relatório de julho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) trouxe poucos ajustes em relação ao levantamento anterior, reforçando um cenário de relativa estabilidade para o mercado mundial de trigo. Embora o órgão tenha promovido redução nos estoques finais globais e confirmado uma safra norte-americana historicamente pequena, o aumento da disponibilidade exportável dos países do Mar Negro continua limitando um movimento mais consistente de valorização das cotações internacionais.

No cenário mundial, a produção foi praticamente mantida em 820 milhões de toneladas, enquanto o consumo avançou para 820 milhões, refletindo principalmente o maior uso para alimentação humana em países asiáticos e do Oriente Médio. Como consequência, os estoques finais mundiais recuaram de 275 para 273 milhões de toneladas, reduzindo a relação estoque/consumo de 33,6% para 33,2%, movimento que torna o balanço global ligeiramente mais ajustado, embora ainda confortável sob uma perspectiva histórica.

O principal destaque do relatório permanece sendo os Estados Unidos. A produção foi revisada para 41,8 milhões de toneladas, queda de aproximadamente 12 milhões de toneladas em relação à temporada anterior e o menor volume produzido desde 1970/71. Esse também é o menor saldo exportável da série iniciada em 1960. A redução decorre da menor área colhida, especialmente nas variedades de trigo de inverno, parcialmente compensada por ganhos de produtividade. Com menor oferta, os estoques finais norte-americanos foram reduzidos para 19,7 milhões de toneladas, cerca de 22% abaixo do ciclo anterior, reforçando um quadro doméstico mais restritivo. Ainda assim, o USDA manteve inalterada sua estimativa de preço médio ao produtor em US$ 6,00 por bushel, indicando que a menor produção norte-americana continua sendo compensada pelo cenário favorável de oferta entre os principais concorrentes.

Do lado da oferta internacional, o relatório trouxe revisões positivas para os principais exportadores do Mar Negro. O USDA elevou as estimativas de produção e exportação da Rússia e da Ucrânia, reflexo das boas condições climáticas observadas durante o desenvolvimento das lavouras. A Rússia teve sua projeção de exportações elevada para 47,5 milhões de toneladas, enquanto a Ucrânia passou para 14,5 milhões, ampliando a competitividade da região no mercado internacional. Em contrapartida, o Canadá registrou redução na estimativa de produção, mas insuficiente para alterar significativamente o equilíbrio global.

Outro ponto relevante foi a elevação das exportações projetadas para a Argentina, fator importante para o mercado brasileiro. A maior disponibilidade argentina tende a preservar a competitividade do trigo ofertado ao Brasil durante a comercialização da nova safra, limitando pressões de alta sobre os preços internos, especialmente nas regiões consumidoras mais dependentes das importações.

Em síntese, o relatório apresenta ligeiramente altista para o mercado internacional. A redução dos estoques globais e a menor safra norte-americana oferecem sustentação aos preços, porém esse efeito continua sendo amenizado pela elevada competitividade do trigo originado na Rússia, Ucrânia e Argentina. Dessa forma, o mercado permanece operando em equilíbrio, com os fundamentos climáticos da safra do Hemisfério Sul e o ritmo das exportações dos países do Mar Negro devendo seguir como os principais direcionadores das cotações nas próximas semanas.

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*Élcio Bento – Especialista em trigo por Safras & Mercado, é economista, graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos. Realiza palestras, seminários e consultorias por todo o país, além de ser o responsável pela elaboração dos relatórios diários e semanais do segmento de trigo.