O trigo, historicamente concentrado na Região Sul do país, começa a ganhar espaço em uma nova fronteira agrícola brasileira: o Cerrado. Impulsionada por pesquisa genética, adaptação climática e demanda da indústria moageira, a triticultura no Brasil Central vem ampliando área, produtividade e relevância estratégica dentro do agronegócio nacional.
O movimento ganhou novo capítulo durante a AgroBrasília 2026, com o lançamento de duas cultivares desenvolvidas pela Embrapa para condições tropicais. Embora os materiais representem novos avanços da pesquisa agropecuária, o principal destaque está na consolidação do Cerrado como região estratégica para a expansão da produção nacional de trigo.
Atualmente, o Brasil ainda depende fortemente da importação do cereal, especialmente de países como Argentina, Estados Unidos e Canadá. Parte desse trigo importado atende nichos específicos da indústria alimentícia, como panificação e fabricação de biscoitos.
De acordo com a Embrapa, o crescimento da produção no Cerrado pode ajudar a reduzir essa dependência nos próximos anos. A expectativa é ampliar a área cultivada na região dos atuais 400 mil hectares para cerca de um milhão de hectares na próxima década.
Cerrado ganha espaço na produção nacional
Os números recentes mostram a velocidade dessa transformação. Entre 2021 e 2023, a área cultivada com trigo no Cerrado dobrou, passando de 200 mil para 400 mil hectares. No mesmo período, a produção regional superou 1,3 milhão de toneladas, representando 16% da produção brasileira do cereal, participação que anos atrás girava em torno de apenas 10%.
Para pesquisadores e produtores, parte desse avanço está ligada à evolução do melhoramento genético voltado às condições tropicais. Diferentemente do Sul do país, onde predominam temperaturas mais baixas e maior regularidade de chuvas, o Cerrado exige cultivares mais tolerantes ao calor, déficit hídrico e doenças como a brusone, considerada um dos principais entraves à expansão da cultura no Brasil Central.
Segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados, Julio Albrecht, o novo cenário climático do Brasil Central reforça a necessidade de materiais mais adaptados às condições adversas. “A irregularidade das precipitações e a diminuição da umidade do solo exigem cultivares mais rústicas e adaptadas às condições adversas”, afirma.
Uma das novas cultivares lançadas pela Embrapa foi desenvolvida justamente para sistemas de sequeiro, com foco em tolerância ao calor, resistência à seca e maior estabilidade produtiva em ambientes tropicais. Outra novidade atende uma demanda específica da indústria moageira por trigo com características adequadas à fabricação de biscoitos, segmento que exige farinha com menor força de glúten.
Rotação de culturas fortalece sistema produtivo
Além da produção de grãos, a inserção do trigo no Cerrado também vem sendo vista como alternativa agronômica importante dentro dos sistemas de rotação de culturas.
Segundo o chefe-geral da Embrapa Trigo, Jorge Lemanski, o avanço da cultura acompanha mudanças no regime climático da região e cria oportunidades para ampliar a diversificação agrícola após a soja. “O cenário de redução das chuvas no Brasil Central favorece a inserção do trigo na segunda safra, em rotação com culturas como soja, milho, algodão e sorgo”, aponta.
A rotação contribui para manejo de plantas invasoras, quebra de ciclos de doenças e melhoria das condições físicas do solo, fatores considerados estratégicos para sustentabilidade produtiva em áreas intensivas do Cerrado.
O setor produtivo também enxerga potencial econômico na expansão da triticultura regional. Para representantes de cooperativas e produtores, o avanço da cultura pode fortalecer a indústria moageira nacional, ampliar a oferta de farinha produzida no país e reduzir a vulnerabilidade brasileira às oscilações do mercado internacional.
Pesquisa impulsiona nova fronteira do trigo
A expansão da triticultura no Cerrado é resultado de mais de quatro décadas de pesquisa conduzidas em parceria entre unidades da Embrapa no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul. O trabalho envolve desenvolvimento genético, validação de materiais em campo e adaptação dos sistemas produtivos às condições tropicais.
Segundo pesquisadores, os próximos anos devem ampliar ainda mais os investimentos em cultivares adaptadas tanto ao cultivo irrigado quanto ao sistema de sequeiro.
Para produtores da região, o avanço tecnológico vem mudando a percepção sobre a viabilidade do trigo fora das áreas tradicionais do Sul do país. “A expansão da produção nacional pode contribuir para reduzir a dependência das importações de trigo, fortalecendo a economia interna e ampliando a oferta de farinha de qualidade”, afirma o produtor Paulo Bonato.
Notícia replicada do site: O Presente Rural