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Brasil e Argentina estreitam relação no mercado de trigo

A Argentina confirmou as expectativas e recuperou, sob o governo do presidente Maurício Macri, seu tradicional protagonismo no fornecimento de trigo ao Brasil, um dos maiores importadores globais do cereal. E essa relação está voltando a se aprofundar não só no que se refere aos volumes negociados entre ambos, mas também nas discussões sobre as políticas que regem o segmento. O objetivo é costurar consensos que consolidem a parceria nos fronts técnico e comercial.

Um sinal claro dessa reaproximação poderá ser observado em Campinas (SP) a partir de domingo, quando terá início o "XXIII Congresso Internacional do Trigo". Promovido pela Abitrigo, que representa 45 indústrias moageiras instaladas no Brasil, o evento ganhou um "prólogo" inesperado: a pedido da indústria argentina, as partes já sentarão à mesa antes mesmo da abertura, justamente para alinhar estratégias em questões como qualidade, sanidade e sustentabilidade, onde perduram regras distintas que podem afetar o fluxo comercial e a posição do Mercosul em negociações multilaterais.

"Temos muito interesse nessas discussões. Há questões como os diferentes limites para o uso de agrotóxicos [o Brasil é mais rigoroso que seus sócios no bloco sul-americano], por exemplo, que precisam ser resolvidas. Rotulagem e campanhas de promoção são outros assuntos que estão no foco. E também há questões comerciais. Somos importadores, é verdade, mas também produzimos e exportamos trigo, e nossos moinhos têm interesse em exportar farinha", afirmou o embaixador Rubens Barbosa, presidente da Abitrigo, ao Valor.

Barbosa lembrou que, de acordo com estimativas de mercado, as importações brasileiras de trigo argentino de fato deverão voltar a superar a barreira de 3 milhões de toneladas neste ano, certamente mais da metade do volume que será trazido de fora. Conforme estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), no total as importações deverão alcançar 5,3 milhões de toneladas. Trata-se de um patamar semelhante ao de 2015 (5,5 milhões) e ao de 2014 (5,3 milhões), mas inferior ao que vinha sendo observado em anos anteriores (ver tabela acima) - um movimento que reflete, ao menos em parte, uma estagnação da demanda doméstica que tem relação com a crise econômica do país.

Barbosa reconhece que, sem as barreiras às exportações adotadas pela ex-presidente Cristina Kirchner, a Argentina é uma origem para importações praticamente imbatível para os moinhos brasileiros. Mas o embaixador realçou que, durante os anos de "retenciones" no vizinho, outros fornecedores se fortaleceram - notadamente o Paraguai e os Estados Unidos, sem contar o crescente interesse da Rússia em embarcar seu cereal para o Brasil. Ou seja, a concorrência aumentou e o poder de barganha dos moinhos brasileiros cresceu.

E cresceu na hora certa. Nesta safra internacional 2016/17, a marca é novamente uma oferta abundante. Estimativas atualizadas na quarta-feira pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) indicaram que a produção global alcançará 744,4 milhões de toneladas, 1,3% mais que em 2015/16. A demanda total deverá crescer mais - 3,4%, para 735,7 milhões de toneladas -, mas os estoques finais tendem a seguir gordos (248,4 milhões de toneladas). Nesse contexto, as cotações na bolsa de Chicago, apesar da forte alta de ontem, continuam deprimidas. Ontem os contratos futuros de segunda posição de entrega fecharam a US$ 4,3475 por bushel, o que representa uma queda de 18% em 12 meses.

 

Fonte: Valor Econômico