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Falta de harmonização das regras no Mercosul preocupa moinhos de trigo

São Paulo - A dependência brasileira do trigo internacional aumentou, ao passo que o produtor, frustrado por safras anteriores, reduziu as áreas de plantio dedicadas à cultura. Com isso, o desencontro de normas sanitárias entre os moinhos e seus fornecedores externos tem sido motivo de temor.

A criação de uma convergência regulatória entre Brasil e Argentina, principal parceiro comercial no setor, que se estenda a todo o Mercosul é uma das pautas que serão tratadas no 23º Congresso Internacional do Trigo, que acontecerá em outubro, em Campinas (SP), informou a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), ontem, a jornalistas.

"Alguns países que exportam para nós excedem o volume de agrotóxicos permitido pelo Brasil, porque a legislação é diferente, e não conseguimos identificar exatamente de onde vem [o produto contaminado", explica o presidente da entidade em exercício, Sergio Amaral. Para ele, a entrada de novas regras na Argentina, que está por vir, pode trazer impactos para os moinhos e a farinha brasileiros. "Isso poderá criar dificuldade para a venda do trigo ao Brasil", acrescenta o executivo.

Segundo o presidente do conselho deliberativo da associação, Marcelo Vosnika, das 10,5 milhões de toneladas que serão processadas no ano de 2016, cerca de 5 milhões de toneladas vêm do mercado externo, sendo 90% do Mercosul. "Dos Estados Unidos, importaríamos 500 mil toneladas", diz.

Só em julho, o bloco sul-americano enviou 566,5 mil toneladas de trigo ao Brasil, volume 22,42% superior ao registrado no mesmo mês de 2015. No período, a despesa com estas compras passou de US$ 107,39 milhões para US$ 110,145 milhões, de acordo com levantamento do Ministério da Agricultura.

Ao todo, o Brasil já importou 3,369 milhões de toneladas do cereal, entre janeiro e julho, crescimento de 11,4% na variação anual.

As compras internacionais estão atreladas ao tamanho da safra nacional. No ciclo atual, foram plantados 2,1 milhões de hectares da cultura, retração de 13,9% sobre o cultivado na temporada anterior. Mesmo assim, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) espera um incremento de 12,1% na produção, para 6,2 milhões de toneladas, por melhoria de produtividade na lavoura. A avaliação da entidade foi divulgada no início deste mês e não considerou uma série de geadas que vieram nas últimas semanas, sobre a Região Sul.

No Paraná, maior estado triticultor do País, o Departamento da Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura do estado, revisou ontem para baixo a produção da cultura, quando comparada ao levantamento informado em meados de julho.

A área plantada em solo paranaense ficou em 1,081 milhão de hectares, inferior ao 1,095 milhão de hectares cultivados na safra passada. Para o Deral, a produção deve chegar a 3,301 milhões de toneladas, contra as 3,347 milhões projetadas na análise do mês passado, mas ainda 1% superior ao resultado obtido em 2014/15.

Retomada

O consumo de 10,5 milhões de toneladas pelos moinhos não representa um número agradável, pois vai em linha com as 10,425 milhões de toneladas processadas no ano passado, ou seja, não houve avanço.

Os executivos da Abitrigo acreditam que o volume está atrelado à desaceleração na atividade econômica nacional e à queda no poder de consumo das famílias, que antes substituíam massas e biscoitos de maior valor agregado para outras marcas de menor valor, e neste ano deixaram literalmente deixaram de consumir.

Com a melhora nos indicadores econômicos, Amaral aposta em uma retomada na demanda em 2017. Para atendê-la, o volume de importações vai depender, novamente, do tamanho da safra cultivada no Brasil, com viés de alta.

Nayara Figueiredo

Fonte: DCI