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Rússia caminha para liderar as exportações mundiais de trigo

Rússia está prestes a se tornar, pela primeira vez, a maior exportadora de trigo do mundo. O país deverá superar outros
concorrentes graças a uma excelente colheita nesta safra 2016/17. A União Europeia, líder em 2015/16, perderá o trono em
razão de uma grande queda da produção na França, enquanto a posição dos Estados Unidos continua abalada, segundo o
Departamento de Agricultura americano (USDA).

A região do Mar Negro, formada por Rússia, Ucrânia e Cazaquistão, tornou-se uma força no mercado internacional de
trigo graças ao alto rendimento das lavouras, às moedas fracas e à queda nos preços dos fretes. As exportações de grãos da
Rússia deverão aumentar novamente este ano, após o forte crescimento da produção de trigo, que deverá atingir um novo
recorde de cerca de 70 milhões de toneladas.

O Mar Negro, onde a Rússia é o principal país exportador, sempre foi o maior fornecedor de trigo para o Oriente Médio e
para o norte da África. Mas agora um número crescente de países do Golfo Pérsico e da África está trocando EUA e
Austrália pela região. Os fretes mais baratos também estão levando países distantes, como México e África do Sul,
tradicionais compradores do trigo americano, a preferir o cereal russo.

Andrey Sizov, da SovEcon, uma consultoria de Moscou especializada em grãos, atribui o aumento da produção russa nas
últimas quatro safras a "sorte, clima bom" e ao aumento dos investimentos em tecnologias graças às boas rendas dos
agricultores nos últimos anos".

Enquanto isso, a "sorte" não está sorrindo para os produtores franceses. E em 2016/17, a grande queda prevista para a
colheita da França deixará a União Europeia na segunda posição entre os principais exportadores. A safra francesa de trigo
foi prejudicada por "chuvas impiedosas" no começo do ano, enquanto a falta de sol e as temperaturas frias também
afetaram a qualidade.

"É preciso voltar dez ou 20 anos para ver uma produção tão ruim", diz François Luguenot, diretor de análises de mercado
da InVivo, uma grande cooperativa agrícola francesa que é uma das maiores exportadoras de trigo do país.
A consultoria francesa Agritel prevê uma queda de 30% na produção nacional desta safra, e projeta as exportações para
fora da União Europeia em 5,1 milhões de toneladas, 60% menores. O clima ruim na Europa também afetou a produção de
trigo da Alemanha, mas esta não deverá ser tão fraca quanto a francesa.

As perspectivas de uma safra ruim vêm mantendo os preços do trigo francês em alta, mas safras maiores na Austrália,
Canadá, Cazaquistão, Ucrânia e EUA estão pesando sobre os preços internacionais. Isso significa que as cotações do trigo
francês estão sendo formadas fora do mercado exportador, um revés duplo para os agricultores do país, que claramente já
Rússia caminha para liderar as exportações mundiais de trigo http://www.valor.com.br/imprimir/noticia_impresso/4677559
1 de 2 19/08/2016 18:23 se deparam com uma produção menor.

Os EUA, que vêm perdendo participação de mercado para União Europeia e Rússia nos últimos anos, deverão reconquistar
parte de sua participação. O problema para o trigo americano em 2016 é sua qualidade, uma vez que, embora o clima frio e
úmido tenha beneficiado a produção, os níveis de proteínas, muito importantes para alguns tipos de farinha de trigo,
diminuíram.

Além do forte crescimento da produção ao redor do mundo, a falta de uma armazenagem de qualidade na Rússia
significará que a competição deste ano no mercado de trigo será especialmente acirrada. Com a estocagem limitada por
causa da safra recorde, os agricultores russos e as tradings de grãos se voltarão para o mercado internacional, o que levará
a exportações pesadas especialmente nos meses imediatamente posteriores à colheita, segundo afirma Arthur Marshall,
analista da AHDB Market Intelligence.

O desempenho das exportações russas vai depender principalmente do clima, assim como das flutuações cambiais.
Agricultores e exportadores também vêm fazendo pressão pelo fim do imposto de exportação, criado para evitar a falta de
produtos no mercado doméstico, uma vez que tradings vinham tentando conseguir moeda estrangeira em meio à
desvalorização do rublo vendendo o grão.

Com o tamanho da safra de grãos produzida no país neste ano e o aumento da competição nos mercados internacionais, o
imposto coloca a Rússia em desvantagem, afirmam analistas. (Tradução de Mario Zamarian)

Fonte: Valor Economico