Qualidade do trigo começa na produção, afirma executivo da Abitrigo

01/10/2019



O processamento do trigo e o consumo mundial de alimentos à base do cereal estiveram no centro dos debates da 26ª edição do Congresso Internacional da Indústria do Trigo, em Campinas (SP), que se encerrou na terça-feira (24). O evento foi promovido pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).

Em entrevista ao Campo e Lavoura, o superintendente da entidade, Eduardo Assêncio, falou sobre o cenário internacional, avaliando, entre outros assuntos, possíveis impactos da variação cambial no mercado nacional e sobre como fatores econômicos mudam o comportamento de consumo. Confira trechos da entrevista:

Qual o impacto do acordo Mercosul e União Europeia (UE) para o trigo?

O trigo não entrou diretamente no acordo com a União Europeia. Nós somos importadores, mas de outras origens. Por outro lado, a UE tem alta capacidade e tecnologia em produtos à base de trigo, como biscoitos e massas. E esses alimentos poderão interferir no ambiente competitivo no Brasil, mesmo sem afetar o trigo diretamente. Os alimentos da farinha de trigo não têm muita alavancagem em grandes distâncias, mas algum impacto deve ter. Alguns itens poderiam ser importados.

Como a desvalorização do real frente ao dólar reflete no mercado brasileiro?

O Brasil importa entre 50% e 70% da demanda de trigo. Como o país não é autossuficiente, os contratos de importação sofrem impacto do câmbio. Assim, o cereal sobe no mercado nacional. Quase todo o trigo importado vem da Argentina, alguma coisa do Paraguai e do Hemisfério Norte: Estados Unidos e Canadá. O Brasil é o maior comprador de trigo da Argentina, somos responsáveis por 75% do que é exportado pelo país vizinho.

O preço para o consumidor pode subir em razão do dólar?

O preço da farinha depende do mercado internacional e do câmbio, que vem pressionando o preço. Mas a safra de trigo nacional pode fazer certa compensação no valor.

Como a crise argentina impacta  o Brasil?

Neste momento, não impacta. A Argentina tinha uma produção de 16 milhões de toneladas e este ano chegou a 20 milhões. Podemos ter impacto se o governo local aplicar as chamadas “retenciones”, impostos sobre o trigo para exportação. Se, por necessidade econômica, colocarem taxas sobre a exportação de grãos, o preço do trigo aqui no Brasil sofrerá impactos, o que pode ocorrer a partir do próximo ano.

Como tem evoluído a questão da qualidade?

Tem evoluído lentamente. Ao longo dos anos, houve algum progresso na qualificação dos trigos nacionais por meio de institutos de pesquisa e da relação dos produtores com a indústria moageira. Mas não vem ocorrendo no trigo argentino, que é extremamente “commoditizado” e não parametriza a qualidade a seus clientes finais. O progresso é relativamente lento, e mais no nacional do que no importado. Mas, no cenário de América Latina, frente aos líderes de qualidade mundial, como Canadá, Alemanha, França e Estados Unidos, o gap é muito grande. O nível de consciência e de domínio sobre os aspectos de qualidade desses países em trigo é bem avançado em relação ao nosso.

Como a indústria enxerga a questão de segregação?

No processo de classificação, os produtores procuram se adequar aos padrões de qualificação, mas é muito mais comercial do que técnico. Na hora da avaliação técnica, os moinhos avaliam lote a lote. E, de acordo com a necessidade técnica, escolhem os lotes que atendam a sua demanda. Em função do mix de produtos, definem os lotes de trigo no mercado. Não é algo extremamente estruturado no campo. No caso do Canadá, eles segregam os trigos nas propriedades. No mercado nacional, os moinhos têm de pesquisar os lotes.

A segregação traria benefícios para o setor?

Se considerarmos países que têm segregação, como Estados Unidos e Canadá, eles têm prêmio internacional de preço pelo trigo que produzem. O mercado valoriza essa classificação. Mas teria de ter um grande projeto de entidade produtora, e esse projeto não existe no Brasil. Não vejo ninguém, de forma estruturada, pensando em agregar qualidade e em aumentar produção de trigo de acordo com as necessidades do mercado. Para se ter uma ideia, somos um dos principais produtores e exportadores de grãos do mundo e dependemos de trigo do mercado internacional, o que mostra certa necessidade de ajuste. O processo de melhoria tem de partir do fornecedor. A qualidade do trigo começa na produção. A iniciativa tem de partir de entidades produtoras e governamentais. Os moinhos participariam, com certeza, mas não têm condições de protagonizar esse processo. A atividade agrícola no Brasil é muito forte em termos de conhecimento e organização para capitanear esse processo.

Como deverá ficar o consumo nos próximos anos?

O trigo é hábito alimentar primário de uma sociedade, pois fornece energia e carboidrato necessários para as pessoas viverem. O trigo oscila muito próximo ao crescimento vegetativo e aos hábitos de consumo da população. No Brasil, há muitos anos, a média é de 45 quilos por habitante ao ano de farinha de trigo. Está subindo em torno de 1,5% ao ano, relacionado ao crescimento da população. Fatores econômicos não afetam o consumo de trigo em geral, muda a forma de consumo. À medida que há maior poder aquisitivo, aumenta o consumo de produtos de trigo sofisticados. Quando há crise, há substituição por outros mais baratos.


Fonte: Rede RBS