Novo sopro de esperança para elevar a produção de trigo no Rio Grande do Sul

12/03/2019



Aguardada há anos, a recuperação da triticultura no Rio Grande do Sul pode dar seus esperados primeiros sinais de retomada em 2019. Benéfico para a indústria, ao produtor e até para a balança comercial brasileira, um novo interesse pelo cultivo dessa cultura de inverno depende de bons preços ofertados. E, neste quesito, segundo Hamilton Jardim, presidente da Comissão do Trigo da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), já começam a surgir os primeiros estímulos.

O trigo, por sinal, será o principal tema debatido na feira no dia 13, no auditório central, a partir das 15h15min. "Pacotes tecnológicos em insumos para a cultura já estão sendo oferecidos pelas indústrias como alternativa de travamento de preços em boas cotações. Isso é um estímulo ao plantio. Sãos as boas condições ofertadas agora que podem ajudar o produtor a tomar a decisão de semear lá em maio e junho", diz Jardim. O coordenador da Comissão do Trigo da Farsul afirma que a oferta feita atualmente pela indústria, para troca da safra futura por insumos, está com cotação de cerca de R$ 41,00 para PH 78 (onde cada 100 quilos do grão para moagem são extraídos 78 quilos de farinha). Acima, portanto, do preço mínimo, de R$ 36,00 para o produto equalizado pelo mercado. "É um preço incentivador se levarmos em conta que o produtor deve mirar uma média de 3,6 mil quilos por hectare", avalia o representante da Farsul.

A indústria está incentivando desde já o plantio, devido, basicamente, à elevada dependência de importações. Como o País produz em torno de 5,2 milhões de toneladas de trigo, e boa parte disso vai para moagem e vira ração animal, o Brasil está longe de ser autossuficiente ou ao menos de reduzir sua dependência externa. Para atender um consumo anual de cerca de 12 milhões de toneladas, as importações chegam a 7,5 milhões de toneladas ao ano. "Ou seja, a indústria fica refém da importação, da cotação do dólar e de quando chegará o produto. O novo governo federal teria interesse em reduzir o peso negativo da importação de trigo na balança comercial", pondera Jardim.

O dirigente da Farsul calcula que com a defasagem entre oferta e demanda o Brasil importa o equivalente a R$ 7,5 bilhões. Isso seria possível reduzir corrigindo as assimetrias existentes no Mercosul nas questões dos custos de produção, permitindo a compra de insumos mais baratos em países como Argentina e Paraguai. Sobretaxar o produto do Mercosul não é solução, alerta o dirigente. "Não é possível impedir a liberdade comercial, o problema que precisa ser resolvido é o Custo Brasil', reivindica Jardim. Outro fator fundamental à triticultura é que, com os atuais bons preços, o cereal de inverno pode ser determinante para o equilíbrio das contas. Isso porque houve elevado custo de produção da soja no ciclo 2018/2019 (com alta do dólar) e queda no momento da venda. Assim, diz Jardim, mais produtores devem tentar equilibrar as contas com o cultivo de inverno. "Quando uma cultura de verão não vai tão bem em termos de preço, como a soja neste ano, com cotação abaixo do esperado, o produtor precisa obter recursos na lavoura de inverno. Assim, pode segurar a venda do grão e esperar preços melhores", revela o produtor.

Élcio Bento, analista da Safras & Mercado, também vislumbra um cenário de recuperação. Mas, assim como Jardim, destaca que o crescimento, se realmente houver, é sobre uma base muito pequena. Para efeito de comparação, a área cultivada no Rio Grande do Sul já foi de mais de 1 milhão de hectares e na safra de 2018 girou em torno de 700 mil hectares. "A perspectiva de recuperação de área vem em cima da retomada dos preços no momento. 

Atualmente, o preço está em torno de R$ 900,00 a R$ 920,00 a tonelada no Paraná, com alta de 33% sobre o mesmo período do ano passado. No Rio Grande do Sul está em cerca de R$ 800,00, ante R$ 540,00 há um ano", exemplifica Bento. Os preços são balizados pelo mercado internacional, e com o real desvalorizado, importar custa mais caro. Na Argentina, ressalta Bento, os preços também encareceram cerca de 20%. O problema é o elevado volume de incertezas devido ao clima, sempre um grande e possível complicador é sempre o clima. E foi com isso que a produtividade gaúcha padeceu com o clima ao menos três vezes desde 2015.  

Cooperativa gaúcha é referência na gestão do cereal

Localizada em Campo Novo, a Cotricampo consegue andar na contramão da redução da área plantada no Estado graças a um moinho próprio e acompanhamento direto sobre as variedades que estão sendo cultivadas pelos associados. Assim, a cooperativa é uma referência na triticultura gaúcha pela manutenção da área semeada nos últimos anos, segundo destacou o presidente da Fecoagro, Paulo Pires.

De acordo com o presidente da Cotricampo, Gelson Bridi, os cooperativados semearam 65 mil hectares em 17 municípios, encaminhando cerca de 50% da colheita de 60 mil toneladas para fabricação de farinha. "Comercializamos a farinha com três marcas diferentes, para toda a Região Sul e mais outros 10 estados", conta. O segredo, diz o presidente da Cotricampo, é o trabalho de monitoramento das lavouras desde o início, o que inclui especialmente as sementes de alta qualidade utilizadas.

Outras estratégias passam pela adoção de um trigo branco especial para que se obtenha uma farinha mais clara. "De 20% a 25% é de trigo especial para fabricação de farinha mais clara, pela qual pagamos R$ 49,00 a saca, ante R$ 42,00 pela outra variedade, também propícia para fabricação de pães e biscoitos", explica o produtor.


Fonte: Jornal do Comércio