Trigo: importação deve crescer em 2019 com queda da qualidade da Safra Nacional

14/11/2018



A perda de qualidade do trigo nacional nesta safra, por causa do clima, deve fazer com que moinhos brasileiros importem mais cereal em 2019. Durante o III Encontro da Cadeia Produtiva do Trigo, hoje na capital paulista, a Associação Brasileira das Indústrias do Trigo (Abitrigo) estimou um incremento de 500 mil toneladas. "Teremos muito trigo para processamento de ração e biscoito (para os quais o teor de proteína não é fundamental). O tipo pão precisaremos importar ainda mais", disse o vice-presidente do Conselho da Abitrigo, João Carlos Veríssimo. Segundo a entidade, se for confirmada redução de 10% no volume colhido no Brasil, a importação deve atingir 6 milhões de toneladas.

No evento, o executivo do Negócio Trigo da Bunge, Edson Csipai, avaliou que as cotações de trigo devem manter em 2019 a volatilidade observada neste ano. "Na Argentina os preços subiram 54% nos primeiros seis meses, e depois queda de 25%. Já os futuros negociados na Bolsa de Chicago (CBOT) apresentaram recuo de 20% após teremalta de 20%", lembrou. Segundo ele, a oferta de trigo russo continuará sendo um balizador dos preços globais no próximo ano, ainda que Estados Unidos (EUA) e Argentina não tenham a mesma competitividade. O trigo argentino custa, em média, US$20 a tonelada acima do cereal russo. A Rússia vem exportando para países que, tradicionalmente, compravam cereal argentino e norte-americano. "O mercado esperava que o governo russo restringisse o volume de exportação (por causa de quebra na safra local), porém as vendas externas do cereal continuaram. Uma retração da oferta russa é esperada para meados de janeiro e fevereiro, diz Csipai. Nesse período é esperada reação dos futuros na CBOT.

Sobre a Argentina, de onde o Brasil importa cerca de 90% do trigo importado processado pela indústria nacional, o executivo da Bunge avalia que, mesmo com a safra recorde e o avanço da colheita, não houve pressão sobre as cotações. "A Argentina vive uma situação muito confortável, porque venderam antecipadamente cerca de 40% da colheita que ainda está em andamento. A nossa preocupação é até onde vai a curva ascendente de preços."

Executivos do setor presentes no evento da cadeia produtiva consideram que a relação entre moinhos brasileiros e triticultores argentinos não deve mudar, mesmo que haja alteração na política externa no governo Jair Bolsonaro. "O (Paulo) Guedes (futuro ministro da Economia) quis dizer é que o Brasil não pode ficar refém do Mercosul. Não vamos deixar de importar trigo argentino; o que pode acontecer é abrirmos acordos com outros mercados para compor o mix necessário da cadeia produtiva", disse João CarlosVeríssimo ao Broadcast Agro. Segundo a indústria moageira, com a isenção da Tarifa Externa Comum (TEC) o cereal argentino fica em torno de US$ 60/t abaixo do cobrado por países que não integram o Mercosul.

Nos bastidores, a nomeação da presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), para o Ministério da Agricultura foi avaliada como positiva pelos executivos da cadeia tritícola. "Está sendo formada uma equipe que conhece profundamente o setor. O essencial do novo governo será a estratégia adotada para ligação das agências que interferem em todo o setor agro", ressaltou Veríssimo, da Abitrigo. (Isadora Duarte, isadora.duarte@estadao.com)


Fonte: Broadcast Agro