Entrevista/Abitrigo/Rubens Barbosa: Mercosul precisa ser avaliado com cautela pelo novo governo

12/11/2018



O presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, reforça a importância de o Brasil manter relações comerciais com seus vizinhos. "Pela importância que tem para a economia brasileira, o Mercosul tem de ser revisto com cautela", disse ele. A declaração foi dada ao Broadcast Agro quando questionado sobre como avaliava informações da equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro, de que o Mercosul não será prioridade do novo governo. A indústria moageira nacional importa metade do volume de trigo que processa no ano e, desse volume, 90% vêm da Argentina - sobre o trigo adquirido de fora do bloco incide Tarifa Externa Comum (TEC) de 10%.

Barbosa diz que o setor está sugerindo ao novo governo uma nova política nacional do trigo. A ideia, diz ele, é dar condições para que o País amplie a produção e, se tornando competitivo, possa eventualmente exportar excedentes. Para tanto, a relação com outros mercados é fundamental, frisa o ex-embaixador do Brasil em Washington (EUA). "Ofuturo presidente vai assumir num dos ambientes mais complexos e conturbados que não se via desde a Segunda Guerra Mundial, por causa do protecionismo, dos questionamentos da Organização Mundial do Comércio (OMC) e pelos conflitos comerciais entre EUA e China. As relações internacionais, não só diplomáticas, mas políticas e econômicas, serão muito importantes para o Brasil como uma das dez maiores economias do mundo e pelo seu impacto na economia interna."
 
Veja os principais trechos da entrevista:
Broadcast Agro - A Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil e a indústria do trigo importa do país grande parte do cereal de que necessita. Como avalia a declaração do economista Paulo Guedes, responsável pelo plano econômico do presidente eleito, de que Mercosul não será prioridade?
 
Rubens Barbosa - É cedo para tomar essas afirmativas como derradeiras. Não há nenhuma pessoa indicada para falar em nome do Itamaraty, então fica muito difícil analisar. Entretanto, a Argentina e o Mercosul têm sido prioridades para a política externa brasileira nos últimos 27 anos, desde que o bloco foi criado. A Argentina é o terceiro maior mercado para produtos brasileiros, é o maior exportador de trigo para o Brasil e o maior importador de automóveis do Brasil. Somente esses dados mostram a importânciado mercado argentino para o Brasil. Além disso, o Mercosul tem regras que precisam ser cumpridas. O bloco tem de ser reavaliado, mas com cautela.
 
Broadcast Agro - Jornais argentinos já têm noticiado a preocupação de traders com uma possível restrição do Brasil ao Mercosul, principalmente no que tange às negociações de trigo...
 
Barbosa - A Argentina tem uma vantagem competitiva na exportação do cereal para o Brasil por causa do Mercosul, que a isenta da tarifa de 10%. O país é o maior supridor do produto, fundamental para a panificação nacional. Então, quando for reavaliado o Mercosul, todas essas considerações precisam ser levadas em conta. Mas, sem dúvida, é preciso torná-lo menos restritivo para os países membros. É preciso fazer uma análise para tornar o Mercosul menos protecionista e mais aberto a negociações de acordos com outros países.
 
Broadcast Agro - A Abitrigo pretende levar ao presidente eleito essa preocupação em relação ao Mercosul?
 
Barbosa - Vamos apresentar ao novo governo, à equipe de transição e ao futuro ministro da Agricultura a proposta de uma política nacional do trigo. Não uma política protecionista para fechar mercado, mas sim para mantê-lo aberto. Mais de 50% do nosso consumo (de trigo) é importado. Se o moinho preferir importar, ele importa. Caso contrário, ele terá cereal nacional para suprir sua demanda. Ou ainda haverá trigo nacional para exportação. Isso, se aumentarmos a produção do cereal como a Embrapa e outros órgãos acreditam ser possível. Pensamos em uma política completa, que inclui reforma tributária, logística, aumento na produção e todos os gargalos do setor.
 
Broadcast Agro - Essa proposta visa também a autossuficiência de produção?
 
Barbosa - Se a política nacional for aprovada, levará uns dez anos para o Brasil ter uma produção que atenda o consumo doméstico. É uma política de médio prazo, seu efeito não é imediato. Dessa forma, o País continuará produzindo no Rio Grande do Sul e no Paraná e importando da Argentina do Paraguai, dos Estados Unidos (EUA) e do Canadá, como tem sido. A nossa proposta é que o Brasil não fique dependente de outros países edas condições climáticas, que possa ter mais segurança no abastecimento interno.
 
Broadcast Agro - São muitas as variedades de trigo utilizadas na produção da arinha, não? Alguns tipos de cereal continuarão sendo importados?
 
Barbosa - Se tivermos uma política nacional podemos ter uma variedade de sementes, e cnsequentemente, uma farinha de trigo que atenda a nichos de mercado. Cada tipo de cereal para uma finalidade, ou bolo ou pão. Adotar um plano nacional do trigo é ter uma rodução que contemple a diversificação da indústria interna.
 
Broadcast Agro - A Abitrigo já chegou a conversar com o presidente eleito, Jair Bolsonaro?
 
Barbosa - Apresentamos a proposta para todos os candidatos à Presidência. Agora estamos esperando a definição da equipe de transição para entregar o plano aos
responsáveis da divisão agrícola e, futuramente, à equipe do Ministério da Agricultura. Sefor preciso, vamos procurar até o futuro presidente. A nossa proposta é de grande
interesse nacional, porque a perspectiva de aumento da produção interna eleva tambéma riqueza local. O programa planeja expandir, assim como foi feito na cultura da soja, o cultivo do cereal para outras regiões, como o Cerrado e a Bahia.
 
Broadcast Agro - Moinhos nordestinos importam trigo norte-americano pela necessidade de mistura de algumas variedades específicas para panificação. O futuro presidente tem falado em estreitar as relações comerciais com os EstadosUnidos. O que isso pode beneficiar o setor do trigo?
 
Barbosa - Pode sim ter reflexos diretos no nosso mercado. Neste momento estamos discutindo com o governo a importação de 750 mil toneladas de trigo dos EUA (sem
TEC). Essa discussão está parada na Câmara de Comércio Exterior (Camex), vinculada ao Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Talvez essa estratégia (deestreitar as relações comerciais entre os dois países) seja um elemento a mais paranegociar com os EUA. Além desse carregamento, há outros itens, como integração detecnologias.
 
O futuro governo terá de construir uma agenda com cada um dos países, definir o quequer da relação e, com interesse nacional, se aproximar dos países. O futuro presidentevai assumir num dos ambientes mais complexos e conturbados que não se via desde aSegunda Guerra Mundial, por causa do protecionismo, dos questionamentos daOrganização Mundial do Comércio (OMC) e pelos conflitos comerciais entre EUA e China.


Fonte: Broadcast Agro